Angorá

Origem - O animal Angorá é um caprino, embora possa ser confundido com um carneiro em virtude do seu extraordinário pêlo que cobre todo o corpo, exceto a cara e a parte inferior das pernas. Quase todas as cabras Angorá na Turquia são de cor prateada-branca, mas no sudeste há um certo grau de especialização em lanugem. Cabras Angorá de cor marrom, cinza, e pretas são criadas em Siirt e Mardu.
O nome Angorá veio da cidade de Ankara, na Turquia, onde é bem conhecida e também chamada de Tiftik-keçi ou cabra Angorá (mohair). A palavra "mohair" ao que parece vem do Árabe "mukhayar" que significa escolha ou seleção. Ali também surgiram os gatos "angorá" e os coelhos "angorá", todos de renome mundial, devido ao comprimento, finura e maciez dos seus pêlos.
Embora tenha sido criada na Turquia por muitos séculos, a raça provavelmente teve sua origem no Leste, possivelmente na China central ou, mais provavelmente, no Tibete ou Turquistão - considerando que as cabras e seus criadores foram levados para a Turquia por Gengis Khan. Outros alegam que a raça foi criada na Turquia por mais de 4.000 anos e que sua origem está na Anatólia central, embora jamais tenha sido descrita na antiguidade.
Os primeiros escritos sobre a Angorá surgiram no século XVIII por conta de Tournefort e Dauventon, especialistas em lã.
Um importador do século 19 da África do Sul visitou a Turquia à procura de cabras Angorá em companhia do vice-consul de Ankara em 1870 e relatou que, em 1641, um embaixador holandês de Charles V, em Constantinopla, foi o primeiro a registrar a existência das cabras de mohair e lhe disseram que elas tinham sido introduzidas recentemente na Ásia Menor através da Armênia. Certamente todos lhe disseram que elas "vieram do leste". No começo disseram ao embaixador que estas lindas cabras foram criadas como animais de estimação, por serem muito dóceis e mansas. As mulheres gostavam da lanugem macia e começaram a tecer suas próprias roupas, usando as sobras para rechear colchões. Depois, a fibra tornou-se comercialmente valiosa e muitos criadores turcos abandonaram suas criações de carneiros e de cabras de pêlo comum para produzir cabras de mohair.
Nos meados do século XVIII, aparentemente, a companhia Levant - formada por uma porção de comerciantes holandeses e ingleses em Ankara ou proximidades - começou a comprar mohair bruto e tecê-los. Os produtores passaram a ter um grande lucro e imediatamente o governo impôs pesadas taxas ao mohair mas não a outras fibras de cabras e lã de carneiro. Esta taxação, combinada com uma queda coincidente do preço do mohair, devido a uma depressão no mercado exportador, fez com que os produtores voltassem a produzir cabras de pêlo normal e carneiros, em meados de 1870, quando já havia milhões de cabras Angorá de várias diferentes linhagens na Anatólia.
Os criadores encontraram uma única saída: as cabras Angorá foram exportadas em grandes quantidades, especialmente para a África do Sul e Estados Unidos. Retirada de seu ambiente nativo esta raça delicada provou sua inadaptação a alguns climas. Mesmo na Anatólia ela é muito mais bem tratada que as cabras comuns, recebendo abrigo no tempo frio ou molhado. Muitos países, portanto, preferiram cruzar a raça Angorá com cabras mais rústicas, adaptadas às condições climáticas locais. Desde 1881, no entanto, foi proibida a exportação de cabras Angorá da Turquia.
No começo do século 20 dizia-se que havia diferentes variedades de Angorá. Também que a raça era ruim de leite e as mães era indiferentes, mas que a carne era a melhor entre todas as cabras. Houve casos de cabras Angorá de um ano (12-20 meses) produzir uma carne mais suculenta e mais macia que vitelos de 3-5 meses de idade. Houve várias experiências de cruzamentos na Índia para a produção de carne.
A Turquia ainda tem mais cabras Angorá que qualquer outro país, mas devido a baixas produções por cabras sua produção total é mais baixa que a da África do Sul em particular e comparável com a do Texas nos Estados Unidos.

Aspecto geral - É a única raça que produz o mohair, a fibra das compridas e lustrosas tranças do que, aparentemente parece ser a sua pelagem externa.
É geralmente uma cabra pequena (altura média de 51-55 cm, mas um pouco maior em instituições de pesquisa). Tem uma cabeça afilada e orelhas meio pendulosas. As fêmeas têm chifres de tamanho médio arqueados para trás, mas os machos apresentam chifres fortes e retorcidos. Pegler observou também considerável diversidade em outros aspectos. Por exemplo, as orelhas variavam em comprimento e muitas eram meio pendulosas, enquanto outras eram quase horizontais. Os chifres também diferiam. Muitos eram "quase perpendiculares em ligeira espiral, outros saíam para os lados com um torcido especifico, enquanto que aqui e acolá alguns saíam para trás com uma leve inclinação para fora, voltando as pontas para dentro. Essas variações são devidas ao grande número de cruzamentos tempos atrás com um tipo comum conhecido como raça Curda cujo hábitat era geralmente a Ásia Menor". Pegler descreveu a Curda como uma "cabra negra maior que a branca ou a Angorá propriamente dita.
A raça foi tradicionalmente selecionada para prolificidade. Os gêmeos não são valorizados nas condições da Anatólia Central. As produções de leite e carne são geralmente relegadas a um segundo plano.
A raça Angorá é de grande importância comercial em vários países - não apenas em sua terra" natal" (Turquia), mas também na África do Sul, Estados Unidos e Austrália, Nova Zelândia e Rússia em especial, onde há um grande número de fábricas para a produção de artigos feitos do mohair de cabras Angorá. As raças Mohair Soviética e a Mohair Indiana foram desenvolvidas a partir da raça Angorá. A cabra Angorá deu origem a diversas variedades no mundo.

No Brasil - Segundo Paschoal de Moraes (1927, p. 59), em 1868, Ordañana visitou e aconselhou a criação de cabras Angorá na serra da Estrela, no Rio de Janeiro, perto de Petrópolis. No Rio Grande do Sul, havia 53.762 cabeças de caprinos, em 1907 saltando para 121.128 cabeças em 1916. A raça seleta cultivada naquela província era a Angorá, que se adapta bem naquele Estado (p. 121).
Acredita-se que criadores fluminenses e paulistas realizaram importações no início do século, a ponto de uma cabra Angorá ser tema de capa de uma revista carioca. Até o livro "A Cabra", de Paschoal de Moraes, de 1923, mostra na capa a raça Angorá e também uma provável mestiça de Mambrina com Alpina - deixando claro que o autor indicava estes animais como ideais para o Brasil. (ver capa do livro)
Segundo Honorato de Freitas (1945, p. 40), em 1932 foram introduzidos, na Bahia, reprodutores das raças Nubiana, Murciana e Angorá. Eram animais da Inglaterra e dos Estados Unidos. Foram entregues à Prefeitura de Uauá, mas não receberam os necessários cuidados e orientação, fracassando rapidamente. Castro (1984) diz que a Estação fundada pelo Governo Federal, em Uauá, manteve o Angorá por algum tempo, mas Lampeão e seu bando famigerado, conseguira fechar a Estação e muitos animais desapareceram ou morreram. Os que escapavam para as caatingas, morriam enrascados na vegetação xerófila.
G. Corlett (1971) dizia que a criação de Angorá foi um "modismo". Todo mundo comprava Angorá, principalmente no Rio Grande do Sul. O problema é que a lã não pode ser fiada como as demais lãs, nem tingidas ou tecidas. Assim, a maquinaria instalada condenava o Angorá, antes de tudo, no Brasil. Aos poucos, os criadores foram perdendo o interesse na raça, pois a lã não tinha valor, nem conseguiam entrar no mercado externo. Um desperdício enorme de chance, pois já havia muitos animais no país.
Paradoxalmente, na década de 1940, muitos técnicos ainda afiançavam que o Angorá era notável para a Bahia. Na atualidade, alguns criadores mantêm pequenos rebanhos como curiosidade e como animais de estimação.
Segundo Domingues (1955), em 1943 foi tentado na Bahia o cruzamento de Marota com Angorá, a fim de se implantar ali esta cabra produtora de "mohair". Foi um fracasso. A diferença genética foi o fator determinante: a cabra Angorá era do clima temperado, onde cai neve (planalto de Edwards, EUA).

Situação - O rebanho estimado em mestiçagem é de 1.000 cabeças. Calcula-se que existam cerca de 300 cabeças "puras de origem" (PO), as quais são aptas para receberem um Certificado de Fundação. Quando existirem 500 animais com Certificado de Fundação, poderá ser homologado o Livro de Registro Genealógico, com alguns dados de desempenho funcional. A situação do rebanho é crítica.

Padrão da Raça Angorá

Aptidões: pêlo e carne
Cabeça - média, cônica, alongada e fina. Perfil retilíneo ou subcôncavo, com topete. Orelhas bem implantadas, largas e finas, horizontais ou levemente caídas, com pavilhão voltado para baixo. Desclassificante: orelhas mal formadas, caídas. Chifres cinzentos, achatados, saindo para trás, para cima e para os lados, sempre em espiral e simétricos. Nas fêmeas: mais finos, menos torcido.
Permissível: amochado. Olhos escuros, brilhantes, afastados e proeminentes.
Pescoço - delgado, mais forte nos machos.
Corpo - curto e profundo.
Membros - curtos, firmes e bem aprumados. Cascos claros.
Aparelho mamário - médio, bem conformado e de inserção firme, macio ao tato. Tetos de tamanho médio, bem implantados, pele flexível.
Pele - rósea e fina. Permissível: manchas claras e pequenas no focinho ou orelhas. Desclassificante: manchas escuras ou grandes no corpo. Mucosas claras.
Pelagem - branca uniforme. Pêlos finos, brilhantes e sedosos, de 20 a 30 cm de comprimento, cobrindo todo o corpo. Pelagem sedosa, formando mechas longas e onduladas. com exceção do focinho, chanfro, orelha e extremidade dos membros, que são recobertos por pelagem curta. Topete sobre a fronte. Barba nos machos. Permissível: amarelada ou prateada uniforme, pêlos até 12 ou 15 centímetros, menos longos nas regiões inferiores. Desclassificante: outras colorações, pêlos menores, curtos ou sem pêlos, presença de lanugem (kemp)
Altura média - Fêmeas: 55-65 cm. Machos: 60-70 cm.
Peso médio - Fêmeas: 30-38 kg. Machos: 42-52 kg.

Fonte: www.revistaberro.com.br